Quando cursava a universidade – verão de 1998 -, certa vez estava refletindo sobre a praticidade da quantidade de informação que estava absorvendo e questionei um mestre:
“- Professor, um dia nós usaremos mesmo todo esse conhecimento na nossa vida profissional?”
O mestre então respondeu:
“Às vezes 5 anos, algumas vezes 10 anos depois de formado você tomará alguma atitude e se lembrará: ‘Nossa! Eu vi isso na universidade!’ Certamente tudo o que você aprende aqui cedo ou tarde lhe será útil”.
Confesso que naquela época não botei muita fé nas palavras do mestre. Depois de 10 anos de formado até parece que eu me lembrarei de alguma coisa que estou aprendendo hoje – pensei.
O fato é que semana passada aconteceu algo que me fez lembrar desse professor.
Há 2 anos estávamos Sensei Ramon e eu treinando Jyu Kumite no Dojo. Sensei estava me explicando como deve ser a correta atitude durante a luta…
Repentinamente ele gritou: “- Ataque pra valer!”
Nesse momento avancei com toda minha força para desferir um gyaku suki. Antes que meu pé tocasse o chão Sensei aplicou um ashi barai e gyaku suzi, acertando-me e anulando minha investida.
Sensei esperou que eu recuperasse o fôlego e então disse: “- Quando estiver em combate, não pense em vencer!”
“- Oss!” respondi bem alto. A luta foi reiniciada e ele disse: “- Prepare-se, agora vou atacar..”
Sensei Ramon entrou com Gyaku e Kisame Zuki. Ambos atingiram altura tiudan e não tive chance de defesa… Sensei então ponderou: “- Quando estiver em combate, não pense em ser vencido!”
Durante esse tempo todo aquele dia não saiu da minha mente. Como eu poderia deixar de pensar em vencer, e ao mesmo tempo não pensar na derrota?
Mas há poucos dias me ocorreu algo: acho que comecei a entender o que Sensei estava me ensinando.
Numa luta devo me manter com total atenção. Devo estar alerta para tudo.
Não é possível estar em estado de alerta se minha mente estiver pensando seja em ser campeão ou em ser vencido. Não devem haver preocupações enquanto estou lutando. Acredito que foi isso que Sensei me ensinou e eu demorei todo esse tempo para compreender.
Agora entendo quando ele diz: “- Quando eu luto, não penso em ganhar ou perder”.
Não sei se fico envergonhado por ter demorado tanto tempo para assimilar o que Sensei Ramon me ensinou ou se fico feliz por finalmente ter conseguido compreender a visão dele.
Bem, vou ficar feliz e acreditar que cada um tem seu ritmo de aprendizagem. E o meu é estilo Martinho da Vila. É devagar, é devagar, é devagar, é devagar, devagarinho…
Oss!
Carlos Camacho.





