Archive for the ‘Reflexão’ Category

Estilo Martinho da Vila

domingo, dezembro 16th, 2007

Quando cursava a universidade – verão de 1998 -, certa vez estava refletindo sobre a praticidade da quantidade de informação que estava absorvendo e questionei um mestre:
“- Professor, um dia nós usaremos mesmo todo esse conhecimento na nossa vida profissional?”
O mestre então respondeu:
“Às vezes 5 anos, algumas vezes 10 anos depois de formado você tomará alguma atitude e se lembrará: ‘Nossa! Eu vi isso na universidade!’ Certamente tudo o que você aprende aqui cedo ou tarde lhe será útil”.
Confesso que naquela época não botei muita fé nas palavras do mestre. Depois de 10 anos de formado até parece que eu me lembrarei de alguma coisa que estou aprendendo hoje – pensei.

O fato é que semana passada aconteceu algo que me fez lembrar desse professor.

Há 2 anos estávamos Sensei Ramon e eu treinando Jyu Kumite no Dojo. Sensei estava me explicando como deve ser a correta atitude durante a luta…

Repentinamente ele gritou: “- Ataque pra valer!”

Nesse momento avancei com toda minha força para desferir um gyaku suki. Antes que meu pé tocasse o chão Sensei aplicou um ashi barai e gyaku suzi, acertando-me e anulando minha investida.

Sensei esperou que eu recuperasse o fôlego e então disse: “- Quando estiver em combate, não pense em vencer!”

“- Oss!” respondi bem alto. A luta foi reiniciada e ele disse: “- Prepare-se, agora vou atacar..”

Sensei Ramon entrou com Gyaku e Kisame Zuki. Ambos atingiram altura tiudan e não tive chance de defesa… Sensei então ponderou: “- Quando estiver em combate, não pense em ser vencido!”

Durante esse tempo todo aquele dia não saiu da minha mente. Como eu poderia deixar de pensar em vencer, e ao mesmo tempo não pensar na derrota?

Mas há poucos dias me ocorreu algo: acho que comecei a entender o que Sensei estava me ensinando.

Numa luta devo me manter com total atenção. Devo estar alerta para tudo.

Não é possível estar em estado de alerta se minha mente estiver pensando seja em ser campeão ou em ser vencido. Não devem haver preocupações enquanto estou lutando. Acredito que foi isso que Sensei me ensinou e eu demorei todo esse tempo para compreender.

Agora entendo quando ele diz: “- Quando eu luto, não penso em ganhar ou perder”.

Não sei se fico envergonhado por ter demorado tanto tempo para assimilar o que Sensei Ramon me ensinou ou se fico feliz por finalmente ter conseguido compreender a visão dele.

Bem, vou ficar feliz e acreditar que cada um tem seu ritmo de aprendizagem. E o meu é estilo Martinho da Vila. É devagar, é devagar, é devagar, é devagar, devagarinho… :)

Oss!

Carlos Camacho.

Reflexões de Natal

sábado, dezembro 15th, 2007

Meditação

Olá amigos(as),

Neste post explanarei um pouco sobre algo que tem preenchido meus pensamentos há algum tempo…

Tenho me perguntado se o Karatê que vemos hoje em alguns Dojos, Academias e mídia é o Karate com o espírito de paz ensinado por Mestre Funakoshi. A resposta sincera que me vem a mente é: “-Não, não é”.

Muitas vezes ouvi colegas se queixando sobre o espírito de agressão com o qual eram atacados por seus adversários nas competições, muitas vezes até desrespeitando as regras estabelecidas pela competição (…).

Hoje muitos Karatecas (e professores) praticam visando exclusivamente a obtenção de boas técnicas para viabilizar o êxito em competições, aumentarem currículos, conseguirem patrocínio, fama, dinheiro, sucesso. Para obter tudo isso, não são raras as ocasiões em que um espírito desleal toma sua consciência enquanto estão na competição e seu adversário está pontos na sua frente, afinal o tempo está correndo e perder não está nos planos.

Será que quando Mestre Funakoshi criou o lema do Karate-Do, dentre os quais destaco “Conter o Espírito de Agressão”, ele imaginara que isso seria compatível com o espírito desse tipo de competidor em busca do ouro? Quem sou eu para dar essa resposta, é só uma das indagações que me faço às vezes…

Será que valores como o egoísmo, prepotência e vaidade tem origem no Karate ensinado pelo mestre ou são valores ocidentais (ou não) incorporados à prática indevidamente através dos tempos?

Já fui muito competitivo. Após algumas lições* hoje não sou mais.
*( http://blog.karate-do.com.br/2007/11/16/recordacoes/ )

Isso não é uma crítica para com todos que praticam o Karate Esportivo. Tenho consciência de que existem karatecas e professores sérios e que conseguem ensinar a lealdade, a disciplina e o respeito para seus alunos mesmo em meio ao treinamento esportivo. Quanto cito os valores não relacionados à ética, não estou generalizando, estou apenas explanando sobre o que tenho presenciado nos últimos eventos em que participei seja como técnico, árbitro ou espectador.

Acredito que o Kumite, assim como o Kihon e o Kata são essenciais e estão relacionados entre si quando falamos em um aprendizado eficiente de Karate. Mas quando treinamos o Kumite para competição, treinamos o sun-dome, a parada do golpe centímetros antes do alvo.
O treino constante de parar o golpe molda nossa técnica, e igualmente molda nosso Kime.
Com o Kime “preso” nessa metodologia de treinamento, conseguiremos usá-lo em sua totalidade se necessário for? Bem, eis aqui mais um dos paradoxos encontrados nas artes marciais: treinamos para não lutar (…).

Hoje uma aluna me disse que ouviu de um adulto que o Karate é algo excessivamente violento, e violência é ruim. Disse à ela – Evelyn – o seguinte:
Quando gritamos com alguém, xingamos alguém ou ficamos com vontade de bater em alguém, isso é violência. O ser humano tem a violência em sua essência. Se alguém lhe faz algo que você considera uma grande ofensa, instintivamente você vai querer bater nessa pessoa, a não ser que você raciocine que não é o correto a ser feito e controle sua raiva.
No Karate nós aprendemos a nos conhecer, reconhecer quando surge a raiva e assim aprendemos a controlá-la.
No Karate não existe atitude ofensiva. Você já reparou que todos os Kata começam com uma defesa? Um karateca nunca dá o primeiro golpe, ele evita a briga a qualquer custo. Sempre!
O fato de aprendermos a controlar nossa raiva, nos torna uma pessoa pacífica. E a paz é oposta a violência, por isso descordo do que essa pessoa lhe disse.

Terminado o assunto, realizamos o Zazen (meditação) e terminamos a aula.

Oss!

Carlos Camacho.

O que é o Dô?

sábado, outubro 27th, 2007

A definição do que é o “Dô” a seguir é minha. Essa definição certamente muda de pessoa para pessoa. É muito provável que cada um tenha sua própria definição para esse caminho…

“Dô”, do ideograma michi, caminho.

Daí vem o termo “gueido”, o caminho das artes.

Existem as artes relacionadas ao gueijutsu – são as artes nas quais suas obras sobrevivem através dos tempos.
Como exemplos podemos citar a caligrafia, as partituras de músicas ou os livros de poesia.

Existem as artes relacionadas ao gueinô – nessas artes suas obras devem ser recriadas pelos artistas.
Como exemplos temos o teatro nô, chanoryu e o Karatê-Do.

Estudando um pouco sobre a cultura oriental descobri a existência de vários “Dô”.
Posso citar: gadô (caminho da pintura), kôdô (caminho da fragrância do incenso), onkyokudô (caminho da música), tôgueidô (caminho da cerâmica), kabukidô (caminho do drama – kabuki), haikaidô (caminho do poema haikai), shodô (caminho da caligrafia), nôgakudô (caminho do drama lírico clássico – nô), kadô (caminho das flores), chadô (caminho do chá).

Nenhum havia me cativado como o Karatê-Dô.

Todos esses caminhos possuem grandes segredos. Tais segredos só podem ser desvendados após muitos anos, décadas dedicadas a esse caminho.

Na verdade compreendi que ao escolher seu caminho (ou talvez seja o caminho que te escolhe) você sente que isso é uma escolha para a vida toda. Como o Dô é vitalício, fatalmente amanhã você se tornará melhor que hoje. A melhoria é um resultado natural do treinamento contínuo.

Tudo isso está diretamente ligado a tradição. Os segredos do Dô normalmente são transmitidos de pai para filho, de mestre para discípulo. Isso é inevitável uma vez que as artes gueinô precisam disso para resistir ao tempo.

Por ter essa compreensão senti-me na obrigação de ter discípulos. :) Eu sabia que quando recebesse a faixa preta viria junto uma grande responsabilidade. Além de iniciar o verdadeiro treinamento junto a meu mestre, havia chegado a minha vez de passar esse conhecimento para frente. Como já disse alguém famoso: não importa o conhecimento que você possui, o importante é o que você faz com o que tem.

Esse é o meu entendimento do “Dô”.

Abraços,

Carlos Camacho.

Dia 9

terça-feira, outubro 9th, 2007

Dia 9

O Sábio e o Cientista

terça-feira, outubro 2nd, 2007

As diferenças entre um sábio e um cientista? São muitas e não posso dizer todas. Só algumas.

O sábio conhece com a boca, o cientista, com a cabeça. Aquilo que o sábio conhece tem sabor, é comida, conhecimento corporal. O corpo gosta. A palavra “sapio”, em latim, quer dizer “eu degusto”… O sábio é um cozinheiro que faz pratos saborosos com o que a vida oferece. O saber do sábio dá alegria, razões para viver. Já o que o cientista oferece não tem gosto, não mexe com o corpo, não dá razões para viver. O cientista retruca: “Não tem gosto, mas tem poder”… É verdade. O sábio ensina coisas do amor. O cientista, do poder.

Para o cientista, o silêncio é o espaço da ignorância. Nele não mora saber algum; é um vazio que nada diz. Para o sábio o silêncio é o tempo da escuta, quando se ouve uma melodia que faz chorar, como disse Fernando Pessoa num dos seus poemas. Roland Barthes, já velho, confessou que abandonara os saberes faláveis e se dedicava, no seu momento crepuscular, aos sabores inefáveis.

Outra diferença é que para ser cientista há de se estudar muito, enquanto para ser sábio não é preciso estudar. Um dos aforismos do Tao-Te-Ching diz o seguinte: “Na busca dos saberes, cada dia alguma coisa é acrescentada. Na busca da sabedoria, cada dia alguma coisa é abandonada”. O cientista soma. O sábio subtrai.

Riobaldo, ao que me consta, não tinha diploma. E, não obstante, era sábio. Vejam só o que ele disse: “O senhor mire e veja: o mais importante e bonito do mun­do é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando…”

É só por causa dessa sabedoria que há educadores. A educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. O educador ajuda os outros a irem mudando no tempo.

Eu mesmo já mudei nem sei quantas vezes. As pessoas da minha geração são as que viveram mais tempo, não pelo número de anos contados pelos relógios e calendários, mas pela infinidade de mundos por que passamos num tempo tão curto. Nos meus 74 anos, meu corpo e minha cabeça viajaram do mundo da pedra lascada e da madeira – monjolo, pi­lão, lamparina – até o mundo dos computadores e da internet.

Os animais e plantas também mudam, mas tão devagar que não percebemos. Estão prontos. Abelhas, vespas, cobras, formigas, pássaros, aranhas são o que são e fazem o que fazem há milhões de anos. Porque estão prontos, não precisam pensar e não podem ser educados. Sua programação, o tal de DNA, já nasce pronta. Seus corpos já nascem sabendo o que precisam saber para viver.

Conosco aconteceu diferente. Parece que, ao nos criar, o Criador cometeu um erro (ou nos pregou uma peça!): deu-nos um DNA incompleto. E porque nosso DNA é incompleto somos condenados a pensar. Pensar para quê? Para inventar a vida! É por isso, porque nosso DNA é incompleto, que inventamos poesia, culinária, música, ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos a que se dá o nome de cultura.

Pra isso existem os educadores: para cumprir o dito do Riobaldo… Uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para “desigualizar” as pessoas e fazer outros mundos nascerem…

Rubem Alves.

Dia 25

terça-feira, setembro 25th, 2007

Dia 25

Dia 4

terça-feira, setembro 4th, 2007

Dia 4

Dia 20

segunda-feira, agosto 20th, 2007

Dia 20

Jogue uma pedra num lago

sexta-feira, agosto 3rd, 2007

“Jogue uma pedra num lago e observe o que acontece…”

Não podemos determinar exatamente o que irá acontecer amanhã ou depois, mas podemos colocar em movimento uma energia positiva com a esperança de que ela voltará para nós.

Quando alguém joga uma pedra no meio de um lago, as ondas formadas irradiam até a borda e depois voltam em contracorrente até o centro.

Da mesma forma, a benção que emitimos para o mundo voltará para nós.

Projetamos nossa virtude ao desconhecido, como uma oração que alça vôo em direção ao divino e traz a recompensa, em algum momento, para aquele que rezou.

Autoria: The World Renewal, November, 2003

Um ótimo final de semana!

Carlos Camacho.

Dia 26

quinta-feira, julho 26th, 2007

Dia 26