Num certo dia da primeira semana do ano estava voltando do almoço quando disse para a turma:
- Pessoal, vou passar na academia e volto em 10 minutos…
- Mas o que você vai fazer em 10 minutos? Um colega perguntou.
- Vou pagar a mensalidade de janeiro e já volto.
- Janeiro? Mas você vai estar de férias!!! (e se acabou em risadas…)
Entendi completamente o ponto de vista do colega. Ele é aluno de musculação nesta academia e sua visão sobre o pagamento de mensalidades está ligado ao conceito da prestação de serviços. Quando ele está em período de férias, não está usufruindo dos serviços de seu professor de educação física nas aulas de musculação, então acha natural não pagar pelo período em que não está frequentando as aulas.
Acredito que isso deveria ser encarado de forma diferente por praticantes de artes marciais (…), o que infelizmente algumas vezes não ocorre.
Certa vez queria treinar com um mestre japonês. Estava decidido a frequentar suas aulas no meu período de férias.
No primeiro dia peguei meu dogi (kimono), minha faixa branca e fui até o Dojo.
Na primeira aula o Sensei passou por mim sem falar nada, cumprimentou seus alunos e começou o treino.
Fiquei assistindo o treinamento do começo ao fim.
No segundo dia isso se repitiu. O Sensei passou por mim sem falar nada e conduziu o treinamento com seus alunos, permitindo que eu assistisse.
No terceiro dia o Sensei se aproximou e perguntou o meu nome. Após uma breve conversa ele permitiu que eu participasse do treinamento. Fiquei pensando… Nossa, tenho certeza que muitos aspirantes a discípulo saem daqui indignados no primeiro dia.
Na verdade o Sensei estava conhecendo seu aluno. Tenho certeza que em silêncio ele observou muitas características de seu aspirante a discípulo.
Dizem que no passado os mestres aguardavam muito para aceitar um aluno. Conviviam algum tempo e isso servia tanto para o mestre ter certeza das intenções do aluno, como para que o aluno visse como era a prática daquele grupo de karatecas e tivesse realmente certeza de que o seu desejo era iniciar seu treinamento ali.
A relação mestre-aluno deveria ser algo levado muito a sério. A transmissão do legado de uma arte marcial é algo pouco compreendido por nós ocidentais (…). Bem, só citei isso de transmissão de conhecimento para fazer um link com a “prestação de contas” ref. ao pagamento de mensalidades.
Pagar o mês em que eu estou em férias do Karate-Do não pode ser comparado com o fato do amigo que não paga suas aulas de musculação quando está ausente…
Numa arte marcial existe uma relação invisível aos olhos. Um aluno deve honrar seu mestre pelo privilégio de receber ensinamentos e o pagamento de mensalidades é algo muito pequeno comparado a tudo que está em jogo.
Se você é karateca e não paga o mês em que está em férias… Bem, a dica aqui é: pague.
Sem querer generalizar, é ruim constatar que atualmente alguns karatecas encaram a relação mestre-aluno como se fosse uma relação comercial empresa-cliente. Por outro lado infelizmente alguns professores também tratam seus alunos como clientes. Se ele está pagando a mensalidade em dia, é só chegar na sua carência (tempo necessário para mudança de faixa) que este aluno pode fazer seu exame. E, é claro, nunca há reprovações para que todos fiquem felizes.
Confesso que já não consigo mais aceitar convites para participar desse tipo de banca de avaliação de exames de faixa. O comércio tomou conta de algo que não tem nada a ver com promoções… Pague 2, leve 3?! Lamentável.
O que é o Karate-Do afinal?
Desculpem-me os professores que vivem do Karate nesses termos. Alguns se justificam e dizem que fazem isso pois é preciso pagar o aluguel do espaço, pagar conta de água, luz, telefone, etc. Dizem que implantar como base o Karate Budo certamente reduziria drasticamente o número de alunos e isso significaria um salário menor no fim do mês.
Acho que isso não é justificativa. Karate é Budo! Se querem uma empresa de lucro, por que não abriram uma franquia do McDonald’s?

Abraços.


