Falando sobre faixas

Houve um tempo em que os mestres de Karate-Do ensinavam seus discípulos e não existiam faixas. Na verdade os discípulos usavam um pedaço de pano ou fita para que a roupa ficasse fechada.

Depois de algum tempo o Kimono foi adotado como vestimenta e verificou-se que algo mais firme deveria ser usado na cintura de maneira que durante os movimentos a roupa não se soltasse. Assim, alguns mestres começaram utilizando pedaços de cordas.

Como as cordas ficavam sujas conforme o tempo de uso, estima-se que daí surgiu a idéia de que quanto mais escura a corda (a sujeira acumulada na corda a deixava com uma cor próxima da preta), maior a experiência do praticante que a portava. Com o passar dos anos cada escola de karate determinou uma ordem das cores das faixas. Cada cor teria seu significado e a cor preta seria a de maior nível.

Respeito à tradição

Noutro dia assisti um filme chamado “Dragon – The Bruce Lee history“. Trata-se de uma biografia do artista marcial Bruce Lee, filme este que foi autorizado e acompanhado pela sua esposa, Sra. Linda Lee.

Podemos aprender bastante através de filmes, livros e principalmente convivendo com seu professor ou mestre (…). Uma das coisas interessantes que vi neste filme foi conhecer o fato de que Bruce Lee respeitava e honrava a tradição das artes marciais mas não ficava preso à elas. Ele buscava sempre a melhoria da arte em todos os aspectos. Praticava incansavelmente para aperfeiçoar corpo e mente, mas estudava profundamente os aspectos filosóficos da arte para uma melhor compreensão de sua prática.

Tudo bem, mas o que isso tem a ver com esse post sobre a faixa de Karate? Calma, eu já explico…

Além de ser um praticante de Karate-Do, eu também busco estudar os aspectos filosóficos dessa arte bem como a cultura japonesa em geral. Acho que só conhecendo mais sobre os costumes, crenças e modo de ver a vida do criador de uma arte é que podemos compreender um pouco sobre a ponta deste iceberg que estamos vivenciando…

Há muito tempo atrás, tínhamos a idéia de que a faixa carregava o espírito do lutador.

A idéia era mais ou menos assim: na faixa estava contida toda a experiência e a vivência de seu dono nas lutas e batalhas, e acreditava-se que não se podia lavar as faixas usadas em treinamentos, pois dessa forma esse “espírito” do guerreiro contendo suor e sacrifício não seria perdido.

Quando eu tinha uns 10 anos também ouvi isso dos meus colegas de treino mais experientes. Eles diziam: Você deve honrar a sua faixa. Não a lave e tome cuidado para não sujá-la. Nunca deixe-a no chão.

Bem, agora que já falamos um pouco sobre tradição vou falar um pouco sobre o meu ponto de vista. É importante ressaltar que o que vou dizer agora é apenas o meu ponto de vista. Você pode discordar! ;)

Primeiro) Vivemos num País de clima tropical. Depois de um bom treino a gente tá suado de tal jeito que o Kimono até fica grudado nas costas! É ou não é?!

Segundo) Se o Kimono fica ensopado, adivinha quem também fica cheio de suor? Sim, a sua faixa…

Terceiro) Quando você chega em casa, o que faz para o seu Kimono não ficar com aquele cheiro de chulé? Sim, ele vai direto para a lavanderia.
É preciso lavar o Kimono regularmente em nome da boa higiene. Se a gente largar ele lá num canto qualquer rapidamente ele vai ficar com mau cheiro e o acúmulo de fungos pode até dar origem a bolor. Eca!!!

Quarto) Se a gente faz uma manutenção para a conservação do Kimono mantendo uma boa higiene, acredito que a nossa faixa também é merecedora destes cuidados.

Como assim? Por um acaso estou sugerindo para lavar a faixa?

Ué? Você não lava o Kimono para ele durar mais tempo? Se você cuidar da sua faixa ela também vai durar mais tempo!

Quinto) Outro fator é que se a sua faixa for acumulando o suor dos treinos ininterruptamente, certamente cedo ou tarde ela vai começar a cheirar mal!

Sexto) Se você cuidar bem da sua faixa, ela pode durar uma vida inteira. Portanto, sugiro que você lave sua faixa de vez em quando.

Sétimo) Ok, ok, talvez você seja um praticante tradicional e ache a minha idéia um pouco radical… mas o que você acha do que citei sobre a proliferação de fungos?
Se você acha que estou sendo radical, considere ao menos a possibilidade de logo após um treino, colocar a sua faixa sob o sol e/ou em um lugar bem ventilado. Só isso já vai ajudar bastante na sua conservação.

Ah! Alguns Yudansha (grupo de karatecas faixa preta) acreditam que uma vez por ano a faixa deve ser lavada. Isso geralmente ocorre no final de um ano e início de outro.
O grupo de karatecas vai até um rio e eles lavam suas faixas. Agradecem o ano que passou e ao lavarem suas faixas, simbolicamente estão renovando o espírito para o nascer de um ano de bastante trabalho.

E que 2011 seja um ano de muito treino. Bons treinos pessoal!

One Response to “Falando sobre faixas”

  1. No podcast episódio 4 do blog pintokaratedojo, há uma discussão em que verificamos que atualmente no Japão não se admite faixa ou kimono sujo para treinar. Os participantes concluem que não existiu essa história da corda ir escurecendo de sujeira com o passar dos anos… Bem, agora vemos que as opiniões são diversas. Uns acham que é lenda, outros afirmam ser fato histórico. Eu não sei de nada… rsrs

    Vale a pena conferir esse podcast em: http://pintokaratedojo.wordpress.com/podcast/

    Sei que os mestres em Shorin Ryu também utilizam a cor coral (faixa vermelha e branca) quando são 7o. e 8o. DAN. E há o uso da faixa vermelha quando atingem o 9o. e 10o. DAN. Conheço um mestre 7o. DAN – Kyoshi Takumi Nishimoto – que ministra treinamento aqui em São Paulo – SP.
    Veja mais: http://blog.karate-do.com.br/2010/11/27/mais-um-dia-daqueles-que-a-gente-nunca-esquece/

    Confirmo que os praticantes da esfera Shotokai têm no quinto DAN o grau máximo, mantendo a tradição do mestre Funakoshi. Nunca pratiquei o estilo mas conheci um Sensei Shotokai e o recebi pessoalmente no Dojo de meu Sensei aqui em São Paulo – Brasil.

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