Importante: Se você tem estômago fraco, sente enjôo com facilidade, recomendo não ler esse post.
No início de 1993 eu tinha 15 anos, 5 anos de Karatê e portava o 5o. Kyu – Faixa Vermelha.
Era um sábado, 9 horas da manhã e o sol já brilhava naquele dia de verão. Eu estava de Karate-Gi pois em alguns instantes começaria uma competição de Karate em um Centro Educacional Esportivo chamado Jorge Brudder.
Havia ganhado várias competições realizadas no ano anterior e já era conhecido pelos karatecas da minha categoria. Fazia coleção de troféus e medalhas e ficava me vangloriando contando aos amigos como tinham sido os pontos que me levaram rumo à vitória naquelas ocasiões.
Imaturo, acreditava que “não tinha pra ninguém” naquele dia, e que a única coisa que separava aquele lindo troféu sobre a mesa de cerimônia das minhas mãos era o tempo.
Naquela época usava-se somente protetor bucal e luvas, além disso na disputa estavam misturados atletas de vários estilos de Karate, Kung Fu e Full Contact.
Não haviam muitas regras visando a integridade do atleta. Se você acertasse um mawashi na cabeça do adversário sem controle de kime e o mesmo caísse sem ter condições de continuar o combate, você ganhava a luta por “nocaute técnico”.
Momentos antes da convocação para o início do evento, um atleta de Kung Fu da minha categoria (o qual eu já havia derrotado nos últimos campeonatos) se aproximou e perguntou se eu havia treinado bastante para aquele dia.
“- É claro!”, respondi com um ar de arrogância.
Ele então me propôs: “- Que tal uma lutinha aqui fora mesmo para aquecer?”
Meu super ego não me deixou declinar daquele desafio.
“- Pode vir!” exclamei.
Estávamos a alguns metros de distância, o piso era de cimento naquele local ao ar livre que era fora do koto.
Enquanto ele corria na minha direção eu aguardei seu ataque.
Ao se aproximar ele saltou desferindo um tub yoko geri.
Me esquivei para contra-golpear antes que ele tocasse o chão, mas no momento da esquiva meu pé esquerdo estava raspando no chão de concreto quando encontrou um grande pedaço de vidro que ficou entre meu pé e o chão. Quando a atleta de Kung Fu caiu ele atingiu meu pé com todo o seu peso, fazendo com que o vidro acabasse de perfurar algumas artérias.
Naquele instante percebendo que meu pé estava ficando roxo tive o reflexo de puxar o pedaço de vidro de dentro do meu pé. Ao realizar essa ação o sangue começou a esguichar a um metro de distância.
Muitas pessoas curiosas imediatamente me cercaram e algumas gritavam por socorro. Um amigo viu aquela cena e foi chamar meu Sensei, Alexandre Coradini.
Rapidamente meu Sensei apareceu. Primeiramente ele pediu para que a multidão se afastasse um pouco, pois logo estaria chegando uma ambulância que ele tinha chamado.
Ele desamarrou minha faixa vermelha da cintura e a amarrou ao redor do meu pé numa tentativa de estancar o sangue que não parava de jorrar. Ele percebeu que eu estava apavorado e tentava me acalmar repetindo o tempo todo: “- Calma Carlos, tudo vai ficar bem. Mantenha a calma”.
Logo a ambulância chegou e me levaram as pressas para o hospital mais próximo.
Chegando lá com o Kimono todo ensanguentado, enfermeiros levaram uma maca até a ambulância para que pudessem me levar para o setor de Enfermagem.
Ao adentrar a enfermagem lembro-me de haver uma enfermeira negra, alta e obesa. Ela desamarrou a faixa do meu pé, examinou o estado e disse sorrindo:
“-Ah, você pratica Judô não é?!”
“-Não, é Karate..” eu respondi. Aí ela disse:
“-Ah! Então você é muito forte. Vai tirar isso de letra…” sorrindo de novo.
Ela colocou um palito de picolé dentre meus dentes e disse: “- Morda isso”. Naquela hora eu fiquei preocupado com a sensação de que algo ruim estava pra acontecer…
Ela derramou um frasco de iodo dentro da ferida, que imediatamente ferveu jogando espuma branca e vermelha pra todo lado… Amigos acreditem, tive a nítida impressão de que a mulher tinha ateado fogo no meu pé!
Segurei a maca com força e tentei gritar mas a voz não saiu. Contraí meu corpo todo e por um momento achei que fosse desmaiar, mas isso não aconteceu. A enfermeira então segurou a gase com uma espécie de alicate com as extremidades longas e a introduziu na ferida secando-a. Ela olhou, olhou e disse: “-Olha rapaz, não vou dar ponto porque não há carne aqui para ser costurada (eu podia ver o osso do meu dedão), o negócio vai ser fazer um curativo e você vai trocando esse curativo diariamente até a ferida se fechar sozinha”.
Então a enfermeira fez o curativo e me liberou.
Fiquei uns 2 meses usando chinelo até a total cicatrização, e durante um bom tempo sentia aflição sempre que algo/alguém tocava esse pé, mas hoje ele está novinho em folha.
Desse episódio tirei muitas lições, mas acredito que a maior foi a de aprender a ser humilde.
Até hoje mantenho contato com o Sensei Alexandre Coradini, e às vezes nos lembramos alegremente de momentos como esses. Momentos que se apresentaram difíceis quando aconteceram, mas que hoje nos dão alegria ao serem lembrados.
Às vezes determinado acontecimento nos parece uma coisa ruim, mas tente olhar de um ponto de vista diferente, certamente o ocorrido irá colaborar muito para o seu desenvolvimento.
Um forte abraço,
Carlos Camacho.