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Espírito de Karateca

quinta-feira, março 22nd, 2007

Espírito de Karateca

As quartas-feiras sou aluno do Sensei Ramon Cabrera, 4o. Dan no Estilo Shotokan de Karatê-Do.

Ontem enquanto estávamos conversando momentos antes do treino no Dojo, aconteceu uma coisa que me deixou muito emocionado e orgulhoso.

Em novembro do ano passado foi feita uma proposta aos meus alunos: o mais dedicado e que tivesse maior assiduidade e disciplina até março/2007 seria premiado com um Kimono Meikyo novo.

Dentre os alunos uma criança destacou-se muito, não só tecnicamente mas também com relação à disciplina. O nome dessa Karateca é Mikaellen.

Todos os meus amigos graduados que assistiram algumas de minhas aulas a elogiaram. Esse reconhecimento vinha também dos próprios colegas de treino, pois se impressionavam com a velocidade de aprendizagem dela. Foi a primeira a executar o Heian Shodan sozinha. A primeira a saber as 5 frases do Dojokun. A primeira a fazer a contagem em japonês… (…).

Ontem, apesar de ser um treino específico para Yudansha (faixas pretas), ela veio se despedir e se justificar porque estava ausente nas últimas aulas. A mãe dela conseguiu vender a casa onde moravam e estão de mudança. Disse a ela que sentiremos muitas saudades (na verdade já estou sentindo), e que ela pode nos visitar sempre que quiser.

Expliquei à ela que a competição do Kimono havia acabado e que a entrega seria hoje. Disse que ela foi a vencedora e perguntei se ela queria que eu fosse buscar o Kimono naquele instante na minha casa ou se ela preferia vir buscá-lo hoje a noite no Dojo (…).

Nesse instante ela me olhou no fundo dos olhos. Seus olhos estavam cheios d´água e seu olhar era penetrante, um olhar que transparecia as saudades de seu Sensei e seus amigos de treino, mas também um olhar de gratidão pelo poucos mas intensos momentos em que convivemos (…). Ela me perguntou:

“- Sensei, posso lhe pedir um favor?” – Com uma voz trêmula.

“- É claro Mikaellen!” – Exclamei sem hesitar.

“- Por favor entregue o Kimono para o 2o. Lugar.”

Confesso que tive de ser forte para segurar as lágrimas naquela hora. Ela estava abrindo mão de seu prêmio porque sabia que haviam amigos que também precisavam e queriam muito usar um Kimono. No Bushidô (Código de Honra dos Samurais), isso é chamado de desapego.

Existem artistas marciais que não teriam uma atitude como essa. Uma atitude humilde, de desapego, de amor ao próximo; Um verdadeiro karateca tem uma atitude assim.

Hoje a noite entregarei o Kimono para o 2o. Lugar – a Adriana – e explicarei à todos o que aconteceu ontem. Esse momento eu guardarei para toda a minha vida, na minha consciência e no meu coração.

O mais intrigante dessa história toda é que de certa forma, eu já esperava essa atitude por parte da Mikaellen. É claro que num contexto geral seria muito esperar isso de uma criança; ainda mais quando estamos falando de uma criança que vive na periferia em condições onde tudo colabora para uma má conduta. Mas é que nesses poucos meses de convivência ela se mostrou muito transparente, seus olhos deixam transparecer suas emoções: a felicidade, a garra, o senso de justiça, a raiva, a indignação, o companheirismo. Se eu pudesse levantar para vocês agora uma daquelas placas que os torcedores de futebol levam para os estádios, seria essa: “- EU JÁ SABIA!

Mikaellen, obrigado por tudo.

Seu Sensei e amigo,

Carlos.