Correndo por nada
O avião deve chegar às 8h. Se pegar um táxi, às 8h45min ele chegará ao escritório. Como a conferência começa às 9h, tudo bem. Daí, como deverá falar em primeiro lugar, às 10h deverá estar livre e poderá voltar para…. Tudo isso está muito bem, se não fosse por aquela Lei de Murphy que diz que se alguma coisa pode dar errado, vai dar errado. Furam os planos, o relógio implacável começa a contar tempo de tensão e estresse. Por exemplo, pode haver atraso no avião; além disso, é fundamental considerar uns 15 minutos para o desembarque; o táxi, por sua vez, poderá enfrentar um congestionamento inesperado; a conferência pode começar com atraso; em síntese, muita coisa inesperada pode ocorrer.
Porém, viver perigosamente e com os minutos cronometrados faz parte da vida de muita gente nos dias de hoje. E quando se pára para pensar muitas vezes se percebe que muita gente está exatamente correndo atrás do nada, isto é, não há razão justificável para tanta correria – só compulsão. Curiosamente, uma boa parte das pessoas de grande sucesso aparentemente não vive esbaforida, pressionadas pelo relógio. Aparentemente têm tempo para ler o relatório com atenção, para discutir o assunto com a devida calma, para fazer bem as coisas.
Se você anda correndo muito, é hora de perguntar:
· É isso mesmo que você quer da vida? Está feliz assim? Foi talhado para essa vida “perigosa”? Consegue viver na corrida sem arrasar sua saúde e qualidade de vida?
· A correria se justifica ou é mera compulsão provocada por outros que têm poder sobre sua vida? Já pensou em falar com eles para impor um ritmo mais eficiente às suas coisas?
· Já calculou quanto da correria é compulsão pura que faz perder tempo?
Ser rápido é diferente de ser apressado, ser produtivo é diferente de ser esforçado e sofredor, ser eficaz é diferente de fazer muito. E sempre bom tomar o começo do ano para fazer um balanço das coisas: Vale a pena correr?
Pausa para respirar
As demandas que caem sobre nós andam terríveis: além de termos que nos atualizar constantemente em nosso know-how específico, não podemos perder nada do que acontece em política, economia, tendências sociais, gestão…
Precisamos possuir autoconhecimento, dominar as habilidades interpessoais e saber trabalhar em equipe. Aí vêm as necessidades familiares, o cuidar da saúde, as ações sociais. Andam dizendo agora que precisaremos aprender a falar chinês e ainda há aquele filme imperdível, a necessidade de discorrermos sobre vinhos… De tudo isso, ficamos, sobretudo, com a angústia e o corre-corre. Não dá nem tempo da gente se questionar se precisa mesmo dominar tanta coisa.
É delegando, selecionando e principalmente priorizando as tarefas, que vamos saber o que realmente merece nossa dedicação e o que podemos eliminar sem culpa.
Não se deixar levar pela culpa não significa ser irresponsável. Basta delimitar, entre as inúmeras necessidades, com quais podemos ser complacentes. Permitir-se não ser perfeito, permitir-se estar cansado, permitir-se não ter tempo. Mas, alto lá! A complacência só vale para determinadas tarefas.
Para saber quais, liste todas as tarefas que você precisa realizar mensalmente, desde as profissionais até as pessoais e familiares. Agora separe o que é ou será imprescindível do que é delegável. Imprescindível é o que só você pode ou poderá fazer, enquanto que delegável é tudo o que poderia ser feito por outra pessoa, por uma máquina, ou o que poderia estar pronto ou quase pronto. Não pense agora se você tem quem faça ou se o produto semipronto já existe ou se você ou a empresa não tem verba para a delegação. Foque no que só precisa de sua supervisão.
Agora que você já tem a lista das tarefas delegáveis, comece a pensar em como fazer para se livrar delas ou para reduzí-las. Por exemplo, veja se você pode “delegar” os e-mails em língua estrangeira para um software de tradução, se pode arrumar uma carona para ir aos lugares cujo caminho não conhece, se pode gerar trocas entre amigos, colegas e familiares, desde que todos fiquem com tarefas que gostam de fazer e façam “com um pé nas costas”. Pense também em planilhas e arquivos que deixam tarefas semiprontas. Seja criativo, mas não elimine sua responsabilidade pelos resultados.
No mais, não se torture mais se levou três dias para mandar lavar o carro, se ainda não leu a análise de conjuntura de duas semanas atrás. Só não adie as tarefas que vão fazer com que você perca tempo depois. Opte sempre pelo prioritário. Sem culpa.
Uma pausa para respirar que a gente se dê pode ser tão revigorante quanto um colo de mãe. Ele fará com que a gente agüente o tranco e não corra o risco de jogar a toalha ou ficar doente justamente quando nossa dedicação é imprescindível.
Um pouco de complacência, quando consciente e planejada pode gerar mais resultados do que mais uma tarefa realizada: no fundo, estamos armazenando tempo e energia para nos dedicar ao que realmente interessa.